Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos

Grupo formado por blogueiros que dedicam seu espaço à discussão da sétima arte

Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos - Grupo formado por blogueiros que dedicam seu espaço à discussão da sétima arte

Os Melhores do Festival do Rio 2014

De 24 de setembro a 08 de outubro, a Cidade Maravilhosa sediou mais uma edição do Festival Internacional do Rio de Janeiro, tornando-se a capital mundial do cinema neste período coma exibição de centenas de títulos oriundos de mais de 60 países.

O evento anualmente conta com uma programação diversificada, incluindo as mostras tradicionais (Panorama, Expectativa, Première Brasil…) e as retrospectivas e homenagens, que, neste ano, relembrou nomes importantes da Sétima Arte, como o italiano Roberto Rossellini, Alfred Hitchcock, Michael Cimino e o ator brasileiro recém-falecido Hugo Carvana, com a exibição do clássico “Vai Trabalhar, Vagabundo” (1974), inspirado na canção homônima de Chico Buarque.

A pedido da SBBC, os membros filiados que prestigiaram o festival comentam brevemente sobre os melhores filmes que conferiram durante a maratona. “Boyhood – Da Infância à Juventude”, de Richard Linklater e o canadense “Mommy”, de Xavier Dolan, receberam duas menções cada.

(Clique nas imagens para ampliá-las)

.

.

FestRio | Maïdan - Protestos na Ucrânia | por Erasmo Penteado, Visions de Cinematique

.

FestRio | Boyhood - Da Infância à Juventude | por Erika Liporaci, Artes & Subversão

.

FestRio | Permanência | por Felipe Rocha.

.

FestRio | Boyhood - Da Infância à Juventude | por Patrick Corrêa, Impressões de Um Cinéfilo

.

FestRio | Casa Grande | por Pedro Tavares, Cinema O Rama

.

FestRio | Whiplash - Em Busca da Perfeição | por Rodrigo Torres, AdoroCinema

.

FestRio | Mommy | Wallace Andrioli, Crônicas Cinéfilas

Ranking: Agosto de 2014

Em todas as edições já realizadas do ranking 2014, esta foi a que contou com o número mais reduzido de filmes que ultrapassaram a margem mínima de amostragem. No mês de agosto, aproximadamente 40 filmes foram lançados nos cinemas e em homevideo e apenas nove marcam presença em nossa tabela.

.

Sobre “Amantes Eternos”:

As imagens devem ser apreciadas com gosto e algumas pessoas podem dizer que não há história, mas a realidade é que o que vemos é apenas uma fração de uma vivência que pode ser milenar. Uma bela e poética fração.

Isabel Wittmann, Estante da SalaIsabel Wittmann (AM)

.

Após “Os Limites do Controle”, longa-metragem que permanece inédito no Brasil, o cineasta independente Jim Jarmusch retorna aos cinemas com “Amantes Eternos”, uma das inclusões mais excêntricas já realizadas no universo vampiresco. Aprovado quase por unanimidade, a obra assume a liderança no ranking de agosto.

.

Sobre “Mais Um Ano”:

Leigh, como sempre, entrega um filme de sutilezas sobre as pequenas coisas da vida. Um jeito meio Amélie Poulain de valorizar os fatos mais “corriqueiros” de nossa existência, como a visita de um amigo ou, então, um almoço em família. Tudo isso com aquela habitual habilidade do diretor em extrair o melhor do lado humano de cada personagem.

Matheus Pannebecker (RS)Matheus Pannebecker, Cinema e Argumento

.

Lançamento exclusivo do CineSesc, “Mais Um Ano” chega comercialmente ao país com quatro anos de atraso. Indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original e com passagem pelo Festival do Rio, “Mais Um Ano” não foi esquecido e uma quantidade significativa de membros o avaliaram, garantindo o segundo lugar no ranking.

.

Sobre “The Rover – A Caçada”:

Assim como em seu trabalho anterior, o ótimo Reino Animal, Michôd faz de seus personagens pessoas que respondem ao ambiente que os cerca, escapando de clichês e vilanizações. O cineasta também possui a rara capacidade de extrair sutileza de contextos incrivelmente brutalizados, levando o público a simpatizar com perfis que, de outra forma, seriam abomináveis.

Leonardo Maran (SP)Leonardo Maran, Cinelogin

.

Filme mais conferido desta edição, “The Rover – A Caçada” foi recebido pela Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos com o mesmo entusiasmo que o filme anterior do australiano David Michôd, “Reino Animal”. O drama pós-apocalíptico pouco convencional atingiu 76 de média. Vale também destacar o filme mais recente de Woody Allen, “Magia ao Luar”, que aparece em quarto lugar com uma média de 70.

Os demais resultados podem ser visualizados tanto na tabela abaixo quanto no primeiro comentário destinado à lista de filmes com baixa amostragem. A próxima edição do ranking será publicada em novembro.

.

SBBC - Ranking Agosto de 2014

SBBCast #2 – Kiko Goifman

A segunda edição da SBBCast conta com uma participação muito especial: o diretor e roteirista mineiro Kiko Goifman abriu a sua casa – literalmente – para um divertido bate-papo com os membros da Sociedade. Formado em Arte e Antropologia com mestrado em Multimeios pela Universidade de Campinas, o cineasta iniciou as atividades com curtas e médias-metragens no início dos anos 90, vindo a realizar o seu primeiro longa em 2003. Intimista, o documentário “33” foi selecionado para vários festivais, incluindo os de Locarno e Roterdã. Em 2008, Kiko Goifman lança seu primeiro longa-metragem de ficção, “FilmeFobia” e, em breve, lança o seu segundo, intitulado “Periscópio”, estrelado por João Miguel e Jean-Claude Bernardet, ator recorrente de seus trabalhos.

Curiosidades no processo de filmagens, referências da literatura e cinema, o jogo do documentário X ficção, o risco do documentário em primeira pessoa virar um gênero em si e a influência da cineasta Claudia Priscilla (sua esposa) foram abordados na conversa, que contou com uma rápida, porém especial participação de seu herdeiro, Pedro Goifman, que já está trilhando os caminhos do cinema.

.

Kiko Goifman

 

Participaram do SBBCast #2:

Adécio Moreira Jr (Poses e Neuroses)
Alex Gonçalves (Cine Resenhas)
Elton Telles (Pós-Première)
Julio Pereira (Cineplayers)

 

Versão Para Download

Ranking: Julho de 2014

O mês de julho costuma ser pouco animador em matéria de cinema. O lançamento em grande escala de alguns blockbusters restringe um número mais amplo de opções no circuito e a qualidade dos títulos exibidos costuma ser inferior comparado a outros meses do ano.

.

Sobre “O Grande Hotel Budapeste”:

Manter-se ativo por anos a fio sem flexibilizar sua assinatura por ditames da indústria sem deixar de ser peça fundamental nela já é, por si só, uma razão para elogiar qualquer exemplar da filmografia de Anderson.

Wanderley Teixeira (BA)Wanderley Teixeira, Chovendo Sapos

.

Como consequência, tivemos um mês em que somente 11 títulos ultrapassaram a amostragem mínima para entrarem no ranking (os demais títulos podem ser visualizados no primeiro comentário desta postagem). Em contrapartida, há destaques positivos em nosso relatório, marcado com “O Grande Hotel Budapeste”, novo longa-metragem de Wes Anderson assumindo o primeiro lugar.

.

Sobre “Planeta dos Macacos: O Confronto”:

Os pontos provocadores de maior admiração na fita, bem como no longa de Rupert Wyatt, residem na profundidade de seus personagens e no peso dado à cada uma de suas atitudes. É assustador notar o quanto sentimos, emocionalmente, quando os primatas são colocados em risco pelos seres humanos.

Leonardo Lopes (SP)Leonardo Lopes, LoGGado

.

O segundo lugar foi disputado entre “Planeta dos Macacos: O Confronto” e “O Homem das Multidões”, mas a produção comandada por Matt Reeves levou a melhor por uma diferença mínima. De qualquer modo, o drama codirigido por Cao Guimarães e Marcelo Gomes confirma a boa fase atravessada pelo cinema nacional a partir do segundo semestre deste ano.

.

Sobre “O Homem das Multidões”:

O diferencial de O Homem das Multidões — pois cada um desses filmes tem sua forma particular de lidar com o próprio realismo, seja por uma montagem mais brusca ou acrescentando lamentos cantados à diegese — é a profunda melancolia da câmera que observa o personagem.

Cesar Castanha, Milos Morpha

.

O mês de julho também marcou o lançamento do canto do cisne do cineasta Alain Resnais, que faleceu em março deste ano. Seu “Amar, Beber e Cantar” aparece bem posicionado, com 75 de média. Por fim, além da falta de novidade em ver um Michael Bay assumindo o último lugar do ranking, julho também trouxe dois cineastas importantes em filmes menores. Com 49 de média, “O Teorema Zero” e “Sem Evidências” decepcionaram os fãs de Terry Gilliam e Atom Egoyan.

.

SBBC - Ranking Julho de 2014

Ranking: Junho de 2014

Até então o filme nacional com a maior média (78) nos rankings do primeiro semestre do ano, “Quando Eu Era Vivo” acaba de ter um “colega” para assumir a sua posição. Estreia de Fernando Coimbra na direção de longa-metragem, “O Lobo Atrás da Porta” é o melhor título em nosso ranking de junho e desponta como a melhor produção brasileira do ano.

.

Sobre “O Lobo Atrás da Porta”:

Após a marca deixada por O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho, o cinema nacional é brindado com mais um excepcional exemplar de suspense urbano, desta vez, trocando o bairro de classe média alta do Recife pelo subúrbio da Cidade Maravilhosa.

Elton Telles (PR)Elton Telles, Pós-Première

.

Também conquistaram ótimas médias outros dois lançamentos. Exibido em circuito restrito, “Uma Vida Comum” ficou em segundo lugar por uma diferença mínima, enquanto “Como Treinar o Seu Dragão 2″ conseguiu ultrapassar a média de “Vidas ao Vento” (78), então a melhor animação do ano até esta edição dos rankings mensais.

.

Sobre “Uma Vida Comum”:

Nesta coprodução entre Inglaterra e Itália, definitivamente um dos melhores filmes do ano, a preservação da memória e o medo do esquecimento são tratados com uma singularidade dilacerante, palpável, transformando a mera ficção em algo capaz de enternecer o coração e a alma por um longo tempo.

Alex Gonçalves (SP)Alex Gonçalves, Cine Resenhas

.

Nas demais posições, é importante mencionar “Avanti Popolo”, aclamado pela maioria dos bloqueiros cinéfilos (79 de média) e última aparição do saudoso cineasta Carlos Reichenbach como ator. O relatório também mostra cinco filmes abaixo da média, estando “Transcendence – A Revolução” e “Oldboy – Dias de Vingança” ocupando, respectivamente, a penúltima e última posições no ranking.

.

Sobre “Como Treinar o Seu Dragão 2″:

É especialmente interessante o modo como a trama parte da situação mais pessoal e limitada do primeiro filme para discutir conceitos mais amplos, inclusive inserindo questões ambientalistas de um modo natural e nada panfletário. Aliás, um dos grandes trunfos do filme é justamente tocar em temas profundos – como autodescobrimento, escolhas pessoais, tolerância e tantos outros – de modo muito simples, mas não simplório.

Erika Liporaci (RJ)Erika Liporaci, Artes & Subversão

.

A Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos encerra aqui todas as suas atividades pertinentes ao primeiro semestre de 2014. Em nossa próxima atualização, teremos a publicação do ranking de julho, devendo ocorrer no fim deste mês.

.

SBBC - Ranking Junho de 2014

SBBCast #1 – Silvia Lourenço

A SBBC estreia um novo canal para expandir a comunicação com os leitores: a SBBCast. Sem periodicidade definida, o projeto promete reunir 5 blogueiros cinéfilos para uma conversa de bar. As pautas são variadas, mas tendo sempre o cinema como norte da discussão.

Em cada podcast, teremos com a participação de um convidado. E para inaugurar em grande estilo, contamos com a presença da talentosa atriz Silvia Lourenço, que sustenta no currículo grandes atuações em filmes como “Contra Todos” (2003), “O Cheiro do Ralo” (2006) e “Quanto Dura o Amor?” (2009). Neste ano, Silvia volta às telonas na pele de Margô no elogiado “O Homem das Multidões”, uma codireção de Marcelo Gomes e Cao Guimarães.

No bate-papo, a atriz falou sobre a carreira, o panorama do cinema nacional, seus filmes favoritos de 2014 e comenta seus projetos futuros no cinema, teatro e TV.

.

Silvia-Lourenço

.

Participaram do SBBCast #1:

Adécio Moreira Jr. (Poses e Neuroses)
Cibele Chacon (Sempre às Moscas)
Elton Telles (Pós-Première)
Erasmo Penteado (Vision de Cinematique)
Felipe André Silva (Pipocracia).

 

Versão Para Download

Top 10: Philip Seymour Hoffman

Philip Seymour Hoffman

No início do ano, os cinéfilos foram surpreendidos com a prematura morte de um dos mais interessantes intérpretes em atividade. Nascido em Nova York, o ator Philip Seymour Hoffman participou de mais de 60 produções e entregou performances memoráveis, mesmo em filmes menores.

O ator teve justo reconhecimento em 2006 com o Oscar de Melhor Ator na pele do personagem-título em Capote. Mas antes disso, já tinha provado a que veio, tendo trabalhado com diretores do calibre de Paul Thomas Anderson, Spike Lee, Joel e Ethan Coen e Cameron Crowe. Atrás das câmeras, Hoffman assumiu a condução do singelo Vejo Você no Próximo Verão (2010), o qual protagonizou ao lado da atriz Amy Ryan.

Foi uma amostra relativamente pequena, porém robusta, do seu imenso talento. Dói pensar o quão magnífica seria sua carreira se uma maldita overdose de heroína não interrompesse a trajetória do ator, que completaria 47 anos nesta quarta-feira.

Em reconhecimento à sua rica contribuição para o cinema, a Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos presta um singelo tributo a Philip Seymour Hoffman, elegendo as 10 melhores performances do ator. De 29 trabalhos selecionados pelos membros votantes, eis o resultado.

.

Actors are responsible to the people we play. I don’t label or judge. I just play them as honestly and expressively and creatively as I can, in the hope that people who ordinarily turn their heads in disgust instead think, ‘What I thought I’d feel about that guy, I don’t totally feel right now’

.

 10

por João Paulo Barreto
Película Virtual

.

Lester Bangs era a imagem da crítica musical independente. Durante os anos 1970, escreveu para revistas como a Rolling Stone e Creem, onde foi editor após a primeira tentar castrar a sua sinceridade autoral. No cenário jornalístico vendido daquela década, era uma espécie de salvação no quesito integridade profissional. A imagem do jornalista em seus escritos e trajetória era a de que você pode até flertar com o sucesso, mas lembre-se sempre de sua raiz independente. Philip Seymour Hoffman interpretá-lo foi apenas um dos muitos acertos de Cameron Crowe no retrato da cena roqueira setentista em Quase Famosos. Do mesmo modo que Bangs na crítica, Hoffman era a imagem de um cinema que primava por sua independência. Flertou com filmes pipoca, mas sempre voltava à suas origens com Paul Thomas Anderson, sua cara metade artística. Ambos partiram cedo demais. Nós ficamos com a mesmice.

.

09

por Thomás R. Boeira
Brazilian Movie Guy

.

Último filme que Mike Nichols dirigiu até o momento, Jogos do Poder traz o diretor em ótima forma contando a história de como o congressista norte-americano Charles Wilson ajudou os rebeldes afegãos a derrotar os exércitos soviéticos na década de 1980. No entanto, em um filme que traz um carismático Tom Hanks e uma elegante Julia Roberts, é Philip Seymour Hoffman quem mais se destaca. No papel de Gust Avrakotos, agente da CIA que passa a ajudar Wilson, Hoffman surge com uma intensidade admirável e rouba o filme sempre que aparece, chegando ao ponto de nos fazer sentir falta do personagem quando ele não está em cena. O ator protagoniza os melhores momentos do filme, e sua indicação ao Oscar (a segunda de sua carreira) foi mais do que merecida.

.

08por Wallysson Soares

.

Após uma série de papéis excêntricos que viriam a consolidá-lo no cinema (e inclusive lhe render um Oscar), Philip Seymour Hoffman interpreta em A Família Savage um homem comum. Com sensibilidade e ternura, resgata em Jon Savage preocupações diante de um pai adoecido e medos particulares que podem ser compartilhados por todos nós. Ao lado da excelente Laura Linney, entrega uma das suas mais sensíveis performances. Aliado ainda por bom roteiro e um personagem riquíssimo em nuances, está contido e conquista sem muito esforço por meio de uma presença em cena já conhecida. Além da maravilhosa química construída com Linney, transmite uma onda de sentimentos com olhares significativos e diálogos bem humorados. Uma pequena joia de filme e uma das atuações mais cativantes desse grande ator.

.

07

por Rodrigo Torres
Cineplayers

.

A trágica história de ascensão e queda pessoal na aurora da indústria pornográfica de Paul Thomas Anderson é uma obra-prima. Ponto. PTA alcançou esse feito em Boogie Nights – Prazer Sem Limites porque soube usar e abusar de todos os recursos cinematográficos possíveis, com dinamismo e estilo, sem jamais afetar a sensibilidade necessária para que sua premissa funcionasse – e o que acontece é o contrário, sendo tal característica acentuada. Para tal, ele tem a seu serviço um elenco de primeiro time, afinado, à vontade para improvisar e com assustadora profundidade. Isto é uma verdade tamanha que Philip Seymour Hoffman, talvez sexto ou sétimo nome do elenco, vai da excentricidade explícita de um Scotty J. bêbado ao protagonismo de uma cena de profundo apelo dramático, capaz de sintetizar e personificar o período de glória, excessos e ruína que o diretor pretendia emular. Isso acontece porque Seymour Hoffman, com 10 minutos em cena ou tendo um filme inteiro para si, marcou sua história com um comprometimento irrestrito com seus personagens e sua arte, e por isso tornou momentos de um papel de menor destaque – a exemplo da memorável cena de “Eu sou um idiota!” – mais um capítulo marcante de uma carreira brilhante.

.

06

por Patrick Corrêa
Impressões de Um Cinéfilo

.

Não é fácil ser Caden Cotard. Desafiador para qualquer intérprete, o protagonista de Sinédoque, Nova York está mergulhado em problemas de várias ordens, além de ser assombrado pela decrepitude física e mental. Nas mãos de Philip Seymour Hoffman, ganhou uma estranha verossimilhança em meio às estripulias metalinguísticas de um filme escrito e dirigido por Charlie Kaufman, dado a subversões do cânone narrativo. Ao viver um diretor teatral cuja obra se confunde com a própria vida , Hoffman precisou lançar mão de um arsenal de gestos, olhares e andares que poderiam soar apenas como cacoetes interpretativos, mas burlou esses riscos e entregou um de seus desempenhos mais lapidares em uma trama de abstração crescente para habitar.

.

05

por Ivanildo Pereira
O Blog que Não Estava Lá

.

De todos os personagens que Philip Seymour Hoffman interpretou nos filmes de Paul Thomas Anderson, o enfermeiro Phil Parma de Magnólia (1999) parece o menos chamativo. No entanto, Phil é um dos personagens-chave do filme. Ele é um observador dos outros dramas maiores, e é graças a ele que ocorre o momento-chave do filme, o reencontro entre Frank, personagem de Tom Cruise, e seu pai, vivido por Jason Robards. Em consequência, é desencadeada a antológica chuva de sapos do fim do filme, evento que muda para sempre as vidas dos outros personagens. A ideia do perdão – “O que podemos perdoar?” – é central para o filme e é trazida à tona por esse personagem, e o diretor percebeu a humanidade do ator ao escalá-lo para o papel.

.

04

por Erika Liporaci
Artes & Subversão

.

Há um motivo para que Capitu seja a personagem mais discutida de Machado de Assis: a dúvida que paira sobre seu caráter. Vítima atormentada ou mulher fútil e infiel? Em Dúvida, Philip Seymour Hoffman constrói sua interpretação com essa mesma dualidade. Seria o padre Flynn um homem incompreendido ou um pedófilo dissimulado? Hoffman faz com que Flynn pareça alternadamente inocente e culpado: ao mesmo tempo em que seu discurso soa indignado, resta sempre uma centelha de malícia no olhar. Ao final, é provável que continue a dúvida quanto à culpa do personagem, mas também a certeza a respeito do imenso talento desse grande ator que tão cedo nos deixou. Com esta inesquecível atuação, Philip recebeu a terceira de suas quatro indicações ao Oscar.

.

03

por Alex Gonçalves
Cine Resenhas

.

Um dos cineastas mais importantes da história do cinema, Sidney Lumet teve como “canto do cisne” Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto, um dos melhores títulos de sua vasta filmografia. Tendo dirigido o drama com mais de 80 anos, Lumet demonstrou uma vitalidade invejável e permitiu que todos os componentes de seu elenco entregassem interpretações arrebatadoras. Como a de Philip Seymour Hoffman, que encarna o protagonista Andy com uma fúria nunca apresentada em trabalhos prévios. Repulsivo, Andy não mede esforços para se dar bem na vida, mesmo que para isso seja necessário comprometer toda a sua família, que já experimenta um longo processo de declínio. Eis que entra Philip Seymour Hoffman e a sua capacidade de tornar empático um indivíduo que em nenhum momento apresenta alguma compaixão por todos aqueles que estão ao seu redor.

.

02

por Lucas Ravazzano
Cinemosaico

.

Em um filme que investiga o fascínio do culto e o modo como ele aprisiona os indivíduos, o personagem de Hoffman é a exata personificação da natureza atraente e controladora deste tipo de organização. Seu Lancaster Dodd é uma construção complexa e cuidadosa, transitando entre a imagem que projeta publicamente do carismático e articulado líder religioso enquanto que intimamente se revela instável e mais interessado no poder e influência que sua seita lhe dá do que em usá-la para trazer algum benefício para os outros. O ator transita de maneira orgânica e sensível entre a persona pública de Dodd e aquilo que poderíamos dizer que é seu verdadeiro eu, nos revelando aos poucos as rachaduras em sua fachada culta e polida e seu interior agressivo e inescrupuloso que age com ferocidade quando questionado.

.

01

por  Isabel Wittmann
Estante da Sala

.

Capote é baseado na história real a respeito da investigação que Truman Capote realizou para escrever A Sangue Frio, livro que mudou o jornalismo moderno nos Estados Unidos com seu uso de linguagem literária. Na película, Phillip Seymour Hoffman tem espaço para transbordar seu talento no papel título, pelo qual ganhou um merecido Oscar. Nem sempre é fácil a transposição de uma pessoa real para a tela, mas incorporando trejeitos, maneirismo e mesmo a peculiar voz da figura retratada, ele compõe um personagem longe do caricato e extremamente humano. Ainda que falho, a sutileza da interpretação nos leva a ter empatia e compreendê-lo em suas ações. Hoffman transpira Capote em cada poro, com uma atuação impactante que transcende a mera cinebiografia e o confirma como um dos grandes atores de sua geração.

.